sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Lágrimas de Dragão - V


- capítulo v –

“Se da sua boca sair palavras de maldição ou de benção,de qualquer forma assim será sua vida,por isso cuidado com o que diz.” [Josi Keidy Mathias]


         - Mãe, já disse que ele é bom comigo.
         - Ah, claro, Perséfone, viver num túmulo é o que se chama de casa.
         - não zombe do meu reino, mãe.
         - Hunf, poderíamos ter o mundo lindo o ano todo, mas não, vamos comer uma romãzinha e matar minha mãe de tristeza.
         - Mãe, já faz mais de trezentos anos e isso tem de sempre voltar a mesa?
         - Eu não me conformo.
         - Chega mãe, tá matando minhas flores de tédio.
         - Flores... Você vai ver as flores.
         - O que vai fazer com seus dragões?
         - Ah, bem lembrado! Nené-é-éns.
         Dois grandes dragões entraram correndo.
         - Ah meus amores. Quem são os dragões mais bonitos da mãe Deméter, hein, hein? Ná-não Draconiel, sem fogo, já falei.
         - Mãe, ele é um dragão, se ele não pode cuspir fogo pra quê ser um dragão?
         - Hum, sábio conselho, Perséfone.
        
         “Água, Fogo, Terra e ar,
         Ponham-se a mudar,
         Estes dragões que agora aqui estão,
         Semelhantes a humanos ficarão.
         Água, Ar, Terra e Fogo,
         Que seja de brio laborioso
         E sua prole e seus posteriores
         Cada um de cada vez,
         Terá de servir os Deuses,
         Mas sempre a respeitar o trabalho a executar,
         E até que o último morra
         Aos seus filhos, um Deus recorra,
         Terás o dom de ser magnífico,
         Mas tão mortal como o homem será
         Nunca um não a nós dirá
         E até os fins dos éons durará”

         Os dragões mudaram e tornaram-se homem e mulher, conservando a memória.
         - Muito bom, mãe.
         - Obrigada. Agora do que precisar, peça. Mas sem abusar.
         - Posso dar nomes?
         - Sim, sim.
         - Hum... Draconiel e Serpentália Darkheart, pois é na escuridão que habitam os segredos.
         - Abençoados sejam os meus servos.
         - Obrigado, Senhora – disse Draconiel.
         - Obrigada, Senhorasss, louvadass sejam – disse Serpentália.
         Neste instante, Hermes entra na torre do castelo.
         - Senhoras, bom dia.
         - Bom dia, Hermes, querido, o que o traz a casa de minha mãe?
         - Bem, é sobre esses dois.
         - O quê? Não se pode mais mudar formas? Eu não sou deusa o bastante para isso?
         - Não, minha cara Deméter, não se trata disso.
         - O que é então?
         - Apolo profetizou algo sobre a família dos seus... Amigos.
         - Qual é a poesia dessa vez?
         - Bom, eu não sou chegado a ficar repetindo poesias então... Bem... O último descendente vivo deles vai ser a salvação dos deuses. Um homem filho de anjo vai se tornar tão poderoso quanto nós, mas terá mais fraquezas, pois será mortal e o último rebento destes dois poderá nos salvar. Esse rebento será o filho bastardo, nascido da infidelidade do pai e nada saberá. Já o outro, um nephilim, o único, parece que Yaweh irá concordar em mantê-lo vivo apara que nós morramos e ele seja absoluto.
         - Uau. E Apolo viu isso agora?
         - Não. Ele previu que vocês fariam a mutação e que ele iria prever algo, então previu o que ia acontecer e previu que eu não recitaria o poema, então ficou emburrado e foi-se deitar, mas disse que previu que ele me perdoaria por isso.
         - Ah tá, bom meu amigo alado, então é melhor mantê-los sob o meu manto antes que... ué cadê eles?
         - Ah, não! Eu me esqueci de dizer, Apolo previu que eles fugiriam, eu devia ter prevenido vocês.
         Nessa hora os três Deuses ouviram um lamento e uma súplica: “Perdoai-os, Pai, eles não sabem o que fazem” – Pobrezinho do homem...
         - E você hein, Hermes? Não previu que ia esquecer-se de me contar?
         - Na verdade, não. Mas Apolo previu.

*   *   *

         O Sol começava a entrar no meu quarto quando acordei, abri os olhos devagar e aos poucos constatei serem umas seis horas da manhã e senti alguém se mexer no quarto. De um pulo já estava de pé com os punhos cerrados em posição de ataque e ao me deparar com o visitante me desarmei: uma linda garota, pouco mais nova que eu, de cabelos louro-acobreados e olhos cor de ouro e sardas que lhe adornavam o nariz e bochechas; pele de um leve bronzeado e roupas em tom de ferrugem e azul céu – Quem é você?
         - Meu nome é Aurora. Você é Órion, certo?
         - Sim, você é... Não... Lady Ártemis te mandou, certo?
         - Sim, me acordou bem cedo. Geralmente venho junto ao carro de Apolo, logo atrás da D’alva.
         - Dalva?
         - É, a estrela D’alva.
         - Ah, saquei. Sendo assim, para onde vamos?
         - Nossa, assim, sem nenhum beijinho? – Aurora se aproximou lentamente, rebolando  e me corando as bochechas – Nem um “bom dia”? – Ela já estava com a mão em meu peito e eu senti um calor gostoso.
         - Ahn... é... Bom dia!?
         - Bom Dia! – Ela abriu um largo e caloroso sorriso. Abraçou-me firme, me deu um beijo, soltou-se e gritou – Nós vamos pras Bahamas!

Lágrimas de Dragão IV

- capítulo iv –
“Se a morte fosse um bem, os deuses não seriam imortais.” [Safo de Lesbos]

         As ruas daquele vilarejo, no trópico de capricórnio não eram exatamente como a Fifth Avenue, Tampouco parecia a 25 de março, tava mais para uma esquina de tendas com comida e bebida. Experimentei alguns quitutes, vi alguns bichos, joguei baralho, achei por acaso um colega de escola antigo, o Ramon, andei, bebi, andei e nada dos kalebetes, apelido amável dado por mim aos capangas de Kaleb.
         Por volta da 03h35min da matina senti uns olhos me seguindo, continuei a andar, me escondendo, esquivando, até estar bem longe, e mais vulnerável.
         Quando só árvores existiam ao meu redor, senti dois kalebetes se aproximarem. Não fui tão óbvio quanto ao me render, mas já estava de saco cheio de andar pra lá e pra cá.Por entre as copas das árvores vi a lua mais que cheia, o olho da própria Ártemis estava a espreita. Quando o kalebete número 1 me alcançou deixei-o prender-me e antes que tapasse minha boca, sussurrei “Ártemis” e tudo foi da magnificência divina esperada.
         Surgiu das árvores uma linda virgem de cabelos negros ondulados, pele alva, olhos claros, vestes simples, mas majestosas. Ao seu lado um lobo branco prateado e a sua volta uma leve bruma.
         Vinte caçadoras ocultas pelas árvores apontavam suas flechas para os dois capangas. O numero 1 sorriu para o numero 2, como se esperassem por isso.
         - Lady Ártemis, a que devemos a honra?
         - Não seja hipócrita Tibérius, sabe bem que matar uma de minhas meninas é um crime imperdoável.
         - Comovente. Porque eu me preocuparia?
         - Porque ela é uma Deusa seu imbecil – soltei isso com mais medo do que sarcasmo. Só Kaleb não tinha medo dos Deuses.
         - Cale a boca mortalzinho nojento.
         - Obrigada, Órion, mas isso fica entre os... Kalebetes... Hum gostei, e eu.
         Vinte flechas dispararam de encontro ao número dois e antes de chegarem perto dele, mais vinte corriam de encontro a Tibérius, matando os dois prontamente. Ou não.
         Os dois cairiam no chão ofegando, pareciam bonecos de vodu gigantes, mas não morreram, nunca vi tantas flechas em uma pessoa viva.
         - Ah, agora compreendo como foram tão rápidos para envenenar Anira, sem ela perceber. Venderam suas almas, não foi?
- Argh, malditas caçadoras... Isso não vai nos deter... Argh... Agora sabe disso.
         - Diga: quem é o comprador? – perguntei assustado.
         - É Tibérius, Órion merece saber.
         - Hahaha... Você faz ideia mesmo mortal?
         - Se eu fizesse não perguntava.
         - Claro, talvez a falta de melanina em seus cabelos justifique.    - Ártemis abafou o riso – porque acha que Kaleb é tão forte? Porque acha que é tão difícil matá-lo?
         - Ah, ótimo, mas ele está morto agora e... – de repente vi algo que escapara. “A polícia encontrou o morador da casa morto, Kaleb Badair” – qual o sobrenome do Kaleb mesmo?
         Os capangas riram em meio à tosse e sangue – Isso Órion, Kaleb não morreu, só perdeu a carcaça.
         - Badair era o nome do meu vizinho, Hafik. Eu to confuso.
         - Quem é o imbecil agora moleque – mais risos.
         - eu não tenho vinte flechas no corpo. E lançadas por meninas.
         - Kaleb tomou o corpo do seu vizinho e o seu vizinho é quem morreu no lugar de Kaleb.
         - Então ele tem a cara do Hafik agora?
         - Não, ele está com a mesma cara. Com carne e osso ele faz o que quer no corpo.
         - Me trouxe aqui para pegá-los e matá-los. Porque ta me contando isso?:
         - Para você aprender que enquanto não assumir seu destino, não terá vingança.
         - E vocês correram riscos. Certo. Mate-os, por favor, senhora.
         - Com prazer.
         Ártemis brilhou os olhos e os dois capangas tornaram-se gamos abatidos. Uma das flechas na mão de Ártemis virou um machado, com o qual ela decepou e despedaçou os animais.
         Seu lobo deu um uivo e vários animais carnívoros vieram compartilhar o banquete.
         - Acho que és digno de ajuda, Órion. Serves aos deuses de má vontade, mas serves bem.
         - Obrigado. Eu acho.
         - Hum... Acho que sim. Sua companheira...
         - uma mulher?
         -... Já está chegando. Vai precisar dela para seu próximo feito.
         - onde a encontro?
         - espere em seu quarto, de janela aberta. Vá dormir agora. Por ora, abençoado sejas, Órion Dakart, pois à mãe-lua servistes bem.
         Com um clarão, Ártemis se foi e eu me encontrava em frente à porta do meu quarto. Abri, entrei, abri a janela, deitei na cama e apaguei.
         Em meus sonhos, Kaleb sorria delicadamente para mim e com ar de riso sussurrava “Falta de melanina...”.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Lágrimas de Dragão - III


- Capítulo III –
“A arte de viver se assemelha mais a luta do que à dança, porque é preciso estar preparado e firme para enfrentar o que vier e não o que pode ser previsto” [Imperador Marco Aurélio]

         Por mais que eu gostasse de todas as pessoas, Madagascar me irritava. Muita gente, muito bicho, muito mato, muita areia, muito. Vedei portas e janelas com pó de tijolo, o que me rendia o dia seguro. Sentado na cama de colchão fino e duro, analisei o meu estado: magro, cansado, com olheira e o meu coração duro.
         Havia cinco anos, eu era o típico ídolo teen, alto, bonito, forte, definido, simpático alegre, bonito e sedutor. Eu devia ter desconfiado das facilidades.
         Minha mãe morreu naquela tarde de 31 de outubro, enquanto eu cortava meu bolo de 16 anos. Três homens entraram armados, gritaram com todos, mataram só minha mãe. Eu consegui correr. E corri, corri, corri... Por quase toda a cidade, até conseguir me esconder junto a uma montanha de lixo. Nunca chorei tanto na vida.
         Fiquei ali até o lixeiro passar recolhendo os sacos e isso já era dia 1º de novembro.
         Fiz a coisa mais burra da minha vida: Voltei para casa.
         O corpo da minha mãe jazia no chão da sala de jantar, o bolo estava lá, ouvi sirenes e corri para o segundo andar, peguei o porta-retrato da cabeceira da minha mãe, voltei ao térreo, achei a câmera com as fotos e então o vi pela primeira vez; Kaleb, o Anjo Negro.     Ele sorria delicadamente para mim, mantinha os braços nas costas, em seu lindo terno preto, o rosto quadrado de traços marcados, denunciavam as origens gregas e nos cabelos, cachos muito negros brilhantes.
         Fiquei paralisado, mas a principio não tive medo.
         - Meu nome é Kaleb. Eu... Posso te ajudar se vier comigo.
         Fiquei olhando e olhando e ele sustentando. Algo não me deixava ir.
         Coloquei a câmera fotográfica no bolso, junto com o porta-retrato, dei um passo atrás e de repente Kaleb estava ao meu lado.
         - Venha comigo, eu posso ajudá-lo. Eu sei o que fizeram com a sua mãe, sei quem a matou.
         Meus olhos arderam e verteram silenciosas lágrimas. Um ódio cresceu dentro de mim e aquele homem de feições bondosas tinha respostas. “Tolo”. É o que eu escuto hoje ao lembrar- me da cena.
         Timidamente levantei os olhos para Kaleb: - Quem fez isso co0migo? Por quê?
         - Venha comigo e vai saber de tudo.
         - Não! Me dia agora.
         - Já disse, garoto. Venha comigo e vai saber.
         Kaleb pôs a mão em meu ombro e eu senti o frio que emanava dele. Decidi ouvir o meu feeling e corri para a porta, mas Kaleb estava lá, corri para ao s fundos e lá estava ele. Não importava o quanto eu corresse, Kaleb sorria levemente a minha frente.
          -Vamos facilitar para nós dois garotos. Venha comigo por bem.
         - Você mente, você não é humano, você é frio demais. E o que acha que vai ganhar comigo?
         - Você é só o que quero, venha. Não me obrigue a usar minha força.
         Eu tinha pouca criatividade para argumentos na época. Uma pena. Corri mais uma vez pela casa e senti um enorme peso correr logo em encalço. Kaleb parecia o próprio Minotauro: forte, veloz, monstruoso. Tinha as mãos posicionadas ao lado de minha cintura, pronto para me agarrar, como um débil inseto e quando eu estava quase porta a fora e ele quase me prendendo, um vento forte entrou porta adentro e derrubou Kaleb.
         Ouvi uma voz gritar “FUJA”, prontamente atendi, correndo mais e mais até ouvir a explosão.
         Parei e olhei para trás. Minha casa estava em chamas. Vi minha vida ruindo e queimando e quase me perdi em mim mesmo, quando um garoto, um homem, não sabia precisar, com gentis olhos de brisa, aproximou-se:
         - Você está bem?
         - Podia ser melhor.
         Tá ferido?
         - Não muito. Quem é você?
         -Sou Zé... José.
         - O quê aquele Kaleb queria?
         - Você. Ele disse!
         - Tá, mas por quê?
         - Porque você é... Especial.
         - Qual é cara, se ser especial faz isso com as pessoas, eu quero ser normal.
         - Peculiar, melhor dizendo.
         - Me sinto bem melhor.
         - A primeira coisa que deve saber é que a ironia não é boa amiga para você.
         - E você? É um bom amigo para mim?
         - Sou e serei. Bem aventurado sejas, Órion Dakart, pois não caístes nas mãos do nefasto Kaleb.
         Órion Dakart. Há quanto tempo não ouço esse nome. Meu nome.
         Ouvi burburinhos fora do quarto e despertei do transe nostálgico. Eram quase 19 horas. Eu deveria sair, aproveitar a cidade (o que não me apetecia) e com sorte, ainda hoje, eu completaria a missão de Ártemis. Liguei a TV e o noticiário informava que Jenson Burns havia sido o assassino do empresário Kaleb Badair. De novo os deuses me foram gentis. Acendi velas e incensos e queimei comida para eles, agradecendo o mimo do nome. 20h18min, vamos á caça, ou melhor, ao caçador.

Lágrimas de Dragão - II


- Capítulo II –

“Sou como você me vê.
Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania,
Depende de quando e como você me vê passar.”   [Clarice Lispector]


- Há que se deve a honra do gentil vento Oeste?
- Não devias desdenhar de mim – Eu havia esquecido como era bom o lufar das palavras de Zéfiro. – Sabes bem o que vim fazer aqui.
- Na verdade não faço idéia. Você sumiu por três anos. Não vejo o porquê de você aparecer aqui e agora, já que sumiu antes sem nem dar um “tchau, idiota”.
- Não posso desobedecer aos Deuses maiores, você sabe. Eu fui forçado a te deixar!
-Claro. Deuses.
- Já vos disse, o desdém não é o teu comportamento ideal!
- Enfim. O que Zéfiro, o Ar da Graça, veio me dizer?
- É assim que agradece o presente dos Deuses?
- Que presente Zéfiro? Que presente? Passei os últimos três anos comendo o resto dos pães que o diabo amassou. Veja os cortes e as marcas em meu corpo. Kaleb quase me matou! E os Deuses me chamam de ingrato pelo “presente”?
 - Tu sabes que Kaleb teria te matado se Hércules não tivesse se apiedado de ti.
- Tá me dizendo que eu recebi a benção de Hércules?
- Achavas mesmo que mataria Kaleb com teus próprios pulsos? Tolo.
- Eu sou um zero à esquerda mesmo. Se não fosse a profecia da Pitonisa, eu seria só mais um mortal qualquer. Nunca olhariam para mim!
- Cala-te. Meu tempo é curto.
_ OK.
- Ártemis quer te ver em Madagascar. Tem um trabalho para você.
- Ah, claro! Vamos abusar do mortal que nos deve.
- Já disse para parar de ironias. Sua posição não lhe favorece!
- Nunca vai favorecer!
- Basta! – de súbito, Zéfiro aproximou-se, tomou os olhos de Deus, segurou firme meus braços, fixou em mim os gentis olhos e fez-me tremer como há anos atrás, mas não era medo. – Eu gosto demais de você para que eu seja rude contigo. Vá ao trópico de capricórnio, em Madagascar, e talvez voltemos a nos ver.
- Não! Zéfiro fique aqui. Preciso de você. Não vá.
- Venda suas jóias ao homem de vestes púrpuras com o papagaio e lhe renderá dinheiro suficiente para sobreviver uns meses. Ponha em minha conta.
- Quando você vai voltar?
- Só os deuses sabem.
- Sinto sua falta.
- Controle seu borbulhar. Se fosse equilibrado eu teria voltado.
- Desculpe. Só está sendo muito difícil sem você.
- Desculpado, mas cuidado, pode ser tua ruína.
- Eu... Você... – baixei os olhos, por um instante, encabulado por me sentir frágil. Quando olhei de volta, Zéfiro não estava mais lá. Só pude sentir o seu afago em meus cabelos. – Volte Logo Zéfiro.

               *      *     *
Dobrei a esquina e deparei com um homenzarrão, daqueles 4x4 que assustaria até o King Kong. Usava um blazer púrpura, um monóculo de joalheiro e uma gaiola em suas mãos que trazia um pequeno papagaio. Um crachá o anunciava como Genaro Gentilli.
- Ahn... Dr. Gentilli, o senhor compra jóias?
- Sim, mas as verdadeiras e não cópias, nenhum falsário sai impune com Genaro Gentilli.
- Imagino. Bom, tenho aqui algumas pedras, gostaria de ver?
- Depois de você levar meu pequeno Paco ao veterinário. Diga-lhes que Gentilli vai buscá-lo às dezoito horas.
Me senti um nada, não consegui dizer não.
Dentro da suntuosa loja de Gentilli ele examinou as pedras e soltou:
- Cem mil e não se discute. É mais do que merece, mas elas vêm em boa hora, minha esposa precisa de um presente novo.
- Negócio fechado Sr. Gentilli.
- Porca miséria, não seja tão direto, isso me magoa.
- Perdão, senhor.
- Tá perdoado. Tá aqui a maleta com o teu denaro. E melhor ir logo. Tanto denaro chama atenção.
- Com certeza. Obrigado senhor.
- Vá!
Saí da loja de Genaro e fui ao banco mais próximo, depositei o dinheiro na conta de José Fineas Rocha, o curioso nome que Zéfiro me dera emprestado.
Já no táxi a caminho do aeroporto, ouvi no Rádio Jornal, que um homem fora sufocado em seu apartamento e o assassino deixara um Smiley sobre o corpo e suas unhas, que dentro de algumas horas seriam identificadas.
Às vezes a polícia é tão obtusa.
No aeroporto entrei em uma lojinha e comprei velas e incensos, comprei frutas como oferenda também. Saí do lobby central e fui ao espaço mais vazio do prédio: o banheiro com duchas. Lá havia uma fonte grande de água. Acendi as velas e os incensos, fiz minhas oferendas de frutos e magicamente tudo sumiu em questão de um minuto. Eu podia reclamar, mas os deuses sempre me valeram e nunca me negaram nada. Fui até o portão de embarque e, prestes a entrar no avião avistei um dos capangas de Kaleb, procurando alguém em meio à multidão. Creio que eu era o alvo, mas não lhes dei tempo para me achar.
Sentado em minha poltrona adormeci e no sonho via-me andando ao lado do cacheado Zéfiro. Ele nada falava, só sorria. Ao acordar estava pousando em Madagascar. Agradeci a Zéfiro e Zeus pela boa viagem, mas antes que eu tivesse tempo de sair procurar Ártemis, esta já estava lá a me esperar, disfarçada de mortal sentada em uma cadeira de frente para mim.
- Se teu coração amolecesse com Hermes, garanto que já estavas aqui. Mas Zéfiro é gentil e sensível. Prazer revê-lo.
-Senhora Ártemis, louvada seja. Em que posso ajudar?
- Os capangas de Kaleb estavam a te seguir, não?
- Sim, os vi no portão de embarque.
- Então os deixará encontrá-lo.
- Porque eu faria isso?
- Porque eu estou mandando.
- Claro.
- Mas, a título de desencargo, quero me livrar daquele que matou uma das minhas caçadoras.
- Como ele conseguiu tal feito senhora?
- Jogou veneno no lago em que Anira bebia água. Antes que ela percebesse o veneno já parara seu coração.
- Sinto muito.
- Obrigada.
- Então, alguma proibição?
Ártemis sorriu largamente.
- Sempre há.
- É eu sei.
- Não vais poder lutar, só pode esconder-se. Quando te encontrarem sussurre meu nome e nada de mal lhe será feito.
- Certo.
- Agora vá descansar. Saia sempre à noite, não deixe de proteger a casa durante o dia. Ah, logo vai ter nova companhia.
- Quem?
- Quem? Quem você merecer.
- Então...
- Então é bom que vá logo e não mais pergunte. Bom descanso e até a vista.
Como um raio Ártemis se foi deixando-me com minhas caraminholas.

Lágrimas de Dragão - I

- Capítulo I –
Para se ser feliz até um certo ponto é preciso ter-se sofrido até esse mesmo ponto.”  [Edgar Allan Poe]

Eu não sabia bem por onde começar. Sentia o sangue escorrendo pelo nariz, os ouvidos pulsando e as orelhas ardendo. Via-me sentado no chão, os olhos cheios de lágrimas e minha vontade de viver ia porta a fora.
Cada hematoma em meu corpo parecia pressionado por ferro quente, cada arranhão e corte na pele, ardia mais que o agudo que quebra o vidro. O silêncio só não era completo porque eu ainda respirava.
Respirar.
O doce exercício da vida, a sutil relação amorosa entre nariz, ar e pulmão. Um simples fator que determina a existência.
O corpo ao meu lado não respirava mais. Não tinha um oitavo das manchas e ferimentos que eu tinha, mas EU respirava.
Kaleb tinha o hábito de respirar, até o dia em que me subestimou. De repente se esqueceu de como o fazer, mas a culpa não fora dele. Eu havia suprimido o ar de seu corpo com as mãos. Só uma ajuda pequena de minha parte para com a morte, que estava atrasada quanto à Kaleb. Um dia a morte me agradeceria.
A Morte.
O sublime ato de deixar-se esvair, a maravilhosa arte do não-ser, não-estar, não fazer, o não viver.
O corpo ao lado do inerte Kaleb era o meu e eu não estava morto. A constatação disso fez com que a vontade de viver parasse no beiral da porta e voltasse o rosto para mim, sorrisse sedutoramente e, voltando a crer em mim, corresse e atirasse-se sobre mim me amando, gerando um brilho nos meus olhos, um formigamento na minha pele; a vontade de levantar e ir embora, agora me dominava e eu, refém de minhas vontades, cedi.
Levantei os olhos e vi o estrago feito em meu quarto: a única coisa que se mantivera intocada e imaculada foi o porta-retrato que eu “herdara” de minha mãe e que eternizava nosso amor, guardando a imagem dos meus fatídicos 16 anos. “Abençoado seja, Kaleb. Manteve intacta a única coisa que amo.” Os deuses gostavam mesmo de mim, pois me deram a graça de manter o porta-retrato.
Levantei-me, fui ao chuveiro e tomei um banho gelado, para revigorar as energias; troquei de roupa, escondi as marcas do rosto e cortei os cabelos. Afrodite sempre me agraciou com uma pitada de sua beleza divina. Narciso e Andrômeda teriam inveja de mim. Às vezes eu tinha inveja de mim mesmo.
Limpei a bagunça do quarto e mantive Kaleb deitado, inerte, no mesmo local. Contemplei meu trabalho: não fosse o morto, poderia jurar que nem tinha dormido em casa.
Resolvi deixar um presente à polícia, uma brincadeira. Desenhei um smiley na barriga de Kaleb, cortei as unhas da mão e as coloquei na boca dele, garantindo assim que saberiam que eu era o assassino.
Peguei meu dinheiro todo, as pedras preciosas e o porta-retrato, virei as costas e saí do quarto.
O Sol entrava devagar pelos vidros das janelas e do vidro da porta, como um carinho que só Apolo sabe dar.
Carinho. Aquilo que me aquecia as bochechas há muito frias.
Abri a porta e vi o ar condensar-se a minha frente e ganhar forma e cor. Num instante reconheci meu visitante: Zéfiro.