- Capítulo II –
“Sou como você me vê.
Posso ser leve como uma brisa ou
forte como uma ventania,
Depende de quando e como você me
vê passar.” [Clarice
Lispector]
- Há que se deve a
honra do gentil vento Oeste?
- Não devias
desdenhar de mim – Eu havia esquecido como era bom o lufar das palavras de
Zéfiro. – Sabes bem o que vim fazer aqui.
- Na verdade não faço
idéia. Você sumiu por três anos. Não vejo o porquê de você aparecer aqui e
agora, já que sumiu antes sem nem dar um “tchau, idiota”.
- Não posso desobedecer
aos Deuses maiores, você sabe. Eu fui forçado a te deixar!
-Claro. Deuses.
- Já vos disse, o desdém
não é o teu comportamento ideal!
- Enfim. O que
Zéfiro, o Ar da Graça, veio me dizer?
- É assim que
agradece o presente dos Deuses?
- Que presente
Zéfiro? Que presente? Passei os últimos três anos comendo o resto dos pães que
o diabo amassou. Veja os cortes e as marcas em meu corpo. Kaleb quase me matou!
E os Deuses me chamam de ingrato pelo “presente”?
- Tu sabes que Kaleb teria te matado se
Hércules não tivesse se apiedado de ti.
- Tá me dizendo que
eu recebi a benção de Hércules?
- Achavas mesmo que
mataria Kaleb com teus próprios pulsos? Tolo.
- Eu sou um zero à
esquerda mesmo. Se não fosse a profecia da Pitonisa, eu seria só mais um mortal
qualquer. Nunca olhariam para mim!
- Cala-te. Meu tempo
é curto.
_ OK.
- Ártemis quer te ver
em Madagascar. Tem um trabalho para você.
- Ah, claro! Vamos
abusar do mortal que nos deve.
- Já disse para parar
de ironias. Sua posição não lhe favorece!
- Nunca vai
favorecer!
- Basta! – de súbito,
Zéfiro aproximou-se, tomou os olhos de Deus, segurou firme meus braços, fixou
em mim os gentis olhos e fez-me tremer como há anos atrás, mas não era medo. –
Eu gosto demais de você para que eu seja rude contigo. Vá ao trópico de
capricórnio, em Madagascar, e talvez voltemos a nos ver.
- Não! Zéfiro fique
aqui. Preciso de você. Não vá.
- Venda suas jóias ao
homem de vestes púrpuras com o papagaio e lhe renderá dinheiro suficiente para
sobreviver uns meses. Ponha em minha conta.
- Quando você vai
voltar?
- Só os deuses sabem.
- Sinto sua falta.
- Controle seu borbulhar.
Se fosse equilibrado eu teria voltado.
- Desculpe. Só está
sendo muito difícil sem você.
- Desculpado, mas
cuidado, pode ser tua ruína.
- Eu... Você... –
baixei os olhos, por um instante, encabulado por me sentir frágil. Quando olhei
de volta, Zéfiro não estava mais lá. Só pude sentir o seu afago em meus
cabelos. – Volte Logo Zéfiro.
* *
*
Dobrei a esquina e
deparei com um homenzarrão, daqueles 4x4 que assustaria até o King Kong. Usava
um blazer púrpura, um monóculo de joalheiro e uma gaiola em suas mãos que
trazia um pequeno papagaio. Um crachá o anunciava como Genaro Gentilli.
- Ahn... Dr.
Gentilli, o senhor compra jóias?
- Sim, mas as verdadeiras
e não cópias, nenhum falsário sai impune com Genaro Gentilli.
- Imagino. Bom, tenho
aqui algumas pedras, gostaria de ver?
- Depois de você
levar meu pequeno Paco ao veterinário. Diga-lhes que Gentilli vai buscá-lo às
dezoito horas.
Me senti um nada, não
consegui dizer não.
Dentro da suntuosa
loja de Gentilli ele examinou as pedras e soltou:
- Cem mil e não se
discute. É mais do que merece, mas elas vêm em boa hora, minha esposa precisa
de um presente novo.
- Negócio fechado Sr.
Gentilli.
- Porca miséria, não
seja tão direto, isso me magoa.
- Perdão, senhor.
- Tá perdoado. Tá
aqui a maleta com o teu denaro. E melhor ir logo. Tanto denaro chama atenção.
- Com certeza.
Obrigado senhor.
- Vá!
Saí da loja de Genaro
e fui ao banco mais próximo, depositei o dinheiro na conta de José Fineas
Rocha, o curioso nome que Zéfiro me dera emprestado.
Já no táxi a caminho
do aeroporto, ouvi no Rádio Jornal, que um homem fora sufocado em seu
apartamento e o assassino deixara um Smiley sobre o corpo e suas unhas, que
dentro de algumas horas seriam identificadas.
Às vezes a polícia é
tão obtusa.
No aeroporto entrei
em uma lojinha e comprei velas e incensos, comprei frutas como oferenda também.
Saí do lobby central e fui ao espaço mais vazio do prédio: o banheiro com
duchas. Lá havia uma fonte grande de água. Acendi as velas e os incensos, fiz minhas
oferendas de frutos e magicamente tudo sumiu em questão de um minuto. Eu podia
reclamar, mas os deuses sempre me valeram e nunca me negaram nada. Fui até o portão
de embarque e, prestes a entrar no avião avistei um dos capangas de Kaleb,
procurando alguém em meio à multidão. Creio que eu era o alvo, mas não lhes dei
tempo para me achar.
Sentado em minha
poltrona adormeci e no sonho via-me andando ao lado do cacheado Zéfiro. Ele
nada falava, só sorria. Ao acordar estava pousando em Madagascar. Agradeci a
Zéfiro e Zeus pela boa viagem, mas antes que eu tivesse tempo de sair procurar
Ártemis, esta já estava lá a me esperar, disfarçada de mortal sentada em uma
cadeira de frente para mim.
- Se teu coração
amolecesse com Hermes, garanto que já estavas aqui. Mas Zéfiro é gentil e
sensível. Prazer revê-lo.
-Senhora Ártemis,
louvada seja. Em que posso ajudar?
- Os capangas de
Kaleb estavam a te seguir, não?
- Sim, os vi no
portão de embarque.
- Então os deixará
encontrá-lo.
- Porque eu faria
isso?
- Porque eu estou
mandando.
- Claro.
- Mas, a título de
desencargo, quero me livrar daquele que matou uma das minhas caçadoras.
- Como ele conseguiu
tal feito senhora?
- Jogou veneno no
lago em que Anira bebia água. Antes que ela percebesse o veneno já parara seu
coração.
- Sinto muito.
- Obrigada.
- Então, alguma
proibição?
Ártemis sorriu
largamente.
- Sempre há.
- É eu sei.
- Não vais poder
lutar, só pode esconder-se. Quando te encontrarem sussurre meu nome e nada de
mal lhe será feito.
- Certo.
- Agora vá descansar.
Saia sempre à noite, não deixe de proteger a casa durante o dia. Ah, logo vai
ter nova companhia.
- Quem?
- Quem? Quem você
merecer.
- Então...
- Então é bom que vá
logo e não mais pergunte. Bom descanso e até a vista.
Como um raio Ártemis se foi deixando-me com minhas
caraminholas.
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