- Capítulo I –
“Para se ser feliz até um certo
ponto é preciso ter-se sofrido até esse mesmo ponto.” [Edgar Allan Poe]
Eu não sabia bem por
onde começar. Sentia o sangue escorrendo pelo nariz, os ouvidos pulsando e as
orelhas ardendo. Via-me sentado no chão, os olhos cheios de lágrimas e minha
vontade de viver ia porta a fora.
Cada hematoma em meu
corpo parecia pressionado por ferro quente, cada arranhão e corte na pele,
ardia mais que o agudo que quebra o vidro. O silêncio só não era completo
porque eu ainda respirava.
Respirar.
O doce exercício da
vida, a sutil relação amorosa entre nariz, ar e pulmão. Um simples fator que
determina a existência.
O corpo ao meu lado
não respirava mais. Não tinha um oitavo das manchas e ferimentos que eu tinha,
mas EU respirava.
Kaleb tinha o hábito
de respirar, até o dia em que me subestimou. De repente se esqueceu de como o
fazer, mas a culpa não fora dele. Eu havia suprimido o ar de seu corpo com as
mãos. Só uma ajuda pequena de minha parte para com a morte, que estava atrasada
quanto à Kaleb. Um dia a morte me agradeceria.
A Morte.
O sublime ato de
deixar-se esvair, a maravilhosa arte do não-ser, não-estar, não fazer, o não
viver.
O corpo ao lado do
inerte Kaleb era o meu e eu não estava morto. A constatação disso fez com que a
vontade de viver parasse no beiral da porta e voltasse o rosto para mim,
sorrisse sedutoramente e, voltando a crer em mim, corresse e atirasse-se sobre
mim me amando, gerando um brilho nos meus olhos, um formigamento na minha pele;
a vontade de levantar e ir embora, agora me dominava e eu, refém de minhas
vontades, cedi.
Levantei os olhos e
vi o estrago feito em meu quarto: a única coisa que se mantivera intocada e
imaculada foi o porta-retrato que eu “herdara” de minha mãe e que eternizava
nosso amor, guardando a imagem dos meus fatídicos 16 anos. “Abençoado seja, Kaleb. Manteve intacta a única
coisa que amo.”
Os deuses gostavam mesmo de mim, pois me deram a graça de manter o
porta-retrato.
Levantei-me, fui ao
chuveiro e tomei um banho gelado, para revigorar as energias; troquei de roupa,
escondi as marcas do rosto e cortei os cabelos. Afrodite sempre me agraciou com
uma pitada de sua beleza divina. Narciso e Andrômeda teriam inveja de mim. Às
vezes eu tinha inveja de mim mesmo.
Limpei a bagunça do
quarto e mantive Kaleb deitado, inerte, no mesmo local. Contemplei meu trabalho:
não fosse o morto, poderia jurar que nem tinha dormido em casa.
Resolvi deixar um
presente à polícia, uma brincadeira. Desenhei um smiley na barriga de Kaleb,
cortei as unhas da mão e as coloquei na boca dele, garantindo assim que
saberiam que eu era o assassino.
Peguei meu dinheiro
todo, as pedras preciosas e o porta-retrato, virei as costas e saí do quarto.
O Sol entrava devagar
pelos vidros das janelas e do vidro da porta, como um carinho que só Apolo sabe
dar.
Carinho. Aquilo que
me aquecia as bochechas há muito frias.
Abri a porta e vi o
ar condensar-se a minha frente e ganhar forma e cor. Num instante reconheci meu
visitante: Zéfiro.
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