quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Lágrimas de Dragão - I

- Capítulo I –
Para se ser feliz até um certo ponto é preciso ter-se sofrido até esse mesmo ponto.”  [Edgar Allan Poe]

Eu não sabia bem por onde começar. Sentia o sangue escorrendo pelo nariz, os ouvidos pulsando e as orelhas ardendo. Via-me sentado no chão, os olhos cheios de lágrimas e minha vontade de viver ia porta a fora.
Cada hematoma em meu corpo parecia pressionado por ferro quente, cada arranhão e corte na pele, ardia mais que o agudo que quebra o vidro. O silêncio só não era completo porque eu ainda respirava.
Respirar.
O doce exercício da vida, a sutil relação amorosa entre nariz, ar e pulmão. Um simples fator que determina a existência.
O corpo ao meu lado não respirava mais. Não tinha um oitavo das manchas e ferimentos que eu tinha, mas EU respirava.
Kaleb tinha o hábito de respirar, até o dia em que me subestimou. De repente se esqueceu de como o fazer, mas a culpa não fora dele. Eu havia suprimido o ar de seu corpo com as mãos. Só uma ajuda pequena de minha parte para com a morte, que estava atrasada quanto à Kaleb. Um dia a morte me agradeceria.
A Morte.
O sublime ato de deixar-se esvair, a maravilhosa arte do não-ser, não-estar, não fazer, o não viver.
O corpo ao lado do inerte Kaleb era o meu e eu não estava morto. A constatação disso fez com que a vontade de viver parasse no beiral da porta e voltasse o rosto para mim, sorrisse sedutoramente e, voltando a crer em mim, corresse e atirasse-se sobre mim me amando, gerando um brilho nos meus olhos, um formigamento na minha pele; a vontade de levantar e ir embora, agora me dominava e eu, refém de minhas vontades, cedi.
Levantei os olhos e vi o estrago feito em meu quarto: a única coisa que se mantivera intocada e imaculada foi o porta-retrato que eu “herdara” de minha mãe e que eternizava nosso amor, guardando a imagem dos meus fatídicos 16 anos. “Abençoado seja, Kaleb. Manteve intacta a única coisa que amo.” Os deuses gostavam mesmo de mim, pois me deram a graça de manter o porta-retrato.
Levantei-me, fui ao chuveiro e tomei um banho gelado, para revigorar as energias; troquei de roupa, escondi as marcas do rosto e cortei os cabelos. Afrodite sempre me agraciou com uma pitada de sua beleza divina. Narciso e Andrômeda teriam inveja de mim. Às vezes eu tinha inveja de mim mesmo.
Limpei a bagunça do quarto e mantive Kaleb deitado, inerte, no mesmo local. Contemplei meu trabalho: não fosse o morto, poderia jurar que nem tinha dormido em casa.
Resolvi deixar um presente à polícia, uma brincadeira. Desenhei um smiley na barriga de Kaleb, cortei as unhas da mão e as coloquei na boca dele, garantindo assim que saberiam que eu era o assassino.
Peguei meu dinheiro todo, as pedras preciosas e o porta-retrato, virei as costas e saí do quarto.
O Sol entrava devagar pelos vidros das janelas e do vidro da porta, como um carinho que só Apolo sabe dar.
Carinho. Aquilo que me aquecia as bochechas há muito frias.
Abri a porta e vi o ar condensar-se a minha frente e ganhar forma e cor. Num instante reconheci meu visitante: Zéfiro.

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