sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Lágrimas de Dragão - V


- capítulo v –

“Se da sua boca sair palavras de maldição ou de benção,de qualquer forma assim será sua vida,por isso cuidado com o que diz.” [Josi Keidy Mathias]


         - Mãe, já disse que ele é bom comigo.
         - Ah, claro, Perséfone, viver num túmulo é o que se chama de casa.
         - não zombe do meu reino, mãe.
         - Hunf, poderíamos ter o mundo lindo o ano todo, mas não, vamos comer uma romãzinha e matar minha mãe de tristeza.
         - Mãe, já faz mais de trezentos anos e isso tem de sempre voltar a mesa?
         - Eu não me conformo.
         - Chega mãe, tá matando minhas flores de tédio.
         - Flores... Você vai ver as flores.
         - O que vai fazer com seus dragões?
         - Ah, bem lembrado! Nené-é-éns.
         Dois grandes dragões entraram correndo.
         - Ah meus amores. Quem são os dragões mais bonitos da mãe Deméter, hein, hein? Ná-não Draconiel, sem fogo, já falei.
         - Mãe, ele é um dragão, se ele não pode cuspir fogo pra quê ser um dragão?
         - Hum, sábio conselho, Perséfone.
        
         “Água, Fogo, Terra e ar,
         Ponham-se a mudar,
         Estes dragões que agora aqui estão,
         Semelhantes a humanos ficarão.
         Água, Ar, Terra e Fogo,
         Que seja de brio laborioso
         E sua prole e seus posteriores
         Cada um de cada vez,
         Terá de servir os Deuses,
         Mas sempre a respeitar o trabalho a executar,
         E até que o último morra
         Aos seus filhos, um Deus recorra,
         Terás o dom de ser magnífico,
         Mas tão mortal como o homem será
         Nunca um não a nós dirá
         E até os fins dos éons durará”

         Os dragões mudaram e tornaram-se homem e mulher, conservando a memória.
         - Muito bom, mãe.
         - Obrigada. Agora do que precisar, peça. Mas sem abusar.
         - Posso dar nomes?
         - Sim, sim.
         - Hum... Draconiel e Serpentália Darkheart, pois é na escuridão que habitam os segredos.
         - Abençoados sejam os meus servos.
         - Obrigado, Senhora – disse Draconiel.
         - Obrigada, Senhorasss, louvadass sejam – disse Serpentália.
         Neste instante, Hermes entra na torre do castelo.
         - Senhoras, bom dia.
         - Bom dia, Hermes, querido, o que o traz a casa de minha mãe?
         - Bem, é sobre esses dois.
         - O quê? Não se pode mais mudar formas? Eu não sou deusa o bastante para isso?
         - Não, minha cara Deméter, não se trata disso.
         - O que é então?
         - Apolo profetizou algo sobre a família dos seus... Amigos.
         - Qual é a poesia dessa vez?
         - Bom, eu não sou chegado a ficar repetindo poesias então... Bem... O último descendente vivo deles vai ser a salvação dos deuses. Um homem filho de anjo vai se tornar tão poderoso quanto nós, mas terá mais fraquezas, pois será mortal e o último rebento destes dois poderá nos salvar. Esse rebento será o filho bastardo, nascido da infidelidade do pai e nada saberá. Já o outro, um nephilim, o único, parece que Yaweh irá concordar em mantê-lo vivo apara que nós morramos e ele seja absoluto.
         - Uau. E Apolo viu isso agora?
         - Não. Ele previu que vocês fariam a mutação e que ele iria prever algo, então previu o que ia acontecer e previu que eu não recitaria o poema, então ficou emburrado e foi-se deitar, mas disse que previu que ele me perdoaria por isso.
         - Ah tá, bom meu amigo alado, então é melhor mantê-los sob o meu manto antes que... ué cadê eles?
         - Ah, não! Eu me esqueci de dizer, Apolo previu que eles fugiriam, eu devia ter prevenido vocês.
         Nessa hora os três Deuses ouviram um lamento e uma súplica: “Perdoai-os, Pai, eles não sabem o que fazem” – Pobrezinho do homem...
         - E você hein, Hermes? Não previu que ia esquecer-se de me contar?
         - Na verdade, não. Mas Apolo previu.

*   *   *

         O Sol começava a entrar no meu quarto quando acordei, abri os olhos devagar e aos poucos constatei serem umas seis horas da manhã e senti alguém se mexer no quarto. De um pulo já estava de pé com os punhos cerrados em posição de ataque e ao me deparar com o visitante me desarmei: uma linda garota, pouco mais nova que eu, de cabelos louro-acobreados e olhos cor de ouro e sardas que lhe adornavam o nariz e bochechas; pele de um leve bronzeado e roupas em tom de ferrugem e azul céu – Quem é você?
         - Meu nome é Aurora. Você é Órion, certo?
         - Sim, você é... Não... Lady Ártemis te mandou, certo?
         - Sim, me acordou bem cedo. Geralmente venho junto ao carro de Apolo, logo atrás da D’alva.
         - Dalva?
         - É, a estrela D’alva.
         - Ah, saquei. Sendo assim, para onde vamos?
         - Nossa, assim, sem nenhum beijinho? – Aurora se aproximou lentamente, rebolando  e me corando as bochechas – Nem um “bom dia”? – Ela já estava com a mão em meu peito e eu senti um calor gostoso.
         - Ahn... é... Bom dia!?
         - Bom Dia! – Ela abriu um largo e caloroso sorriso. Abraçou-me firme, me deu um beijo, soltou-se e gritou – Nós vamos pras Bahamas!

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