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capítulo iv –
“Se a morte fosse um bem, os deuses não seriam
imortais.” [Safo de Lesbos]
As ruas daquele vilarejo, no trópico de
capricórnio não eram exatamente como a Fifth Avenue, Tampouco parecia a 25 de
março, tava mais para uma esquina de tendas com comida e bebida. Experimentei
alguns quitutes, vi alguns bichos, joguei baralho, achei por acaso um colega de
escola antigo, o Ramon, andei, bebi, andei e nada dos kalebetes, apelido amável
dado por mim aos capangas de Kaleb.
Por volta da 03h35min da matina senti
uns olhos me seguindo, continuei a andar, me escondendo, esquivando, até estar
bem longe, e mais vulnerável.
Quando só árvores existiam ao meu
redor, senti dois kalebetes se aproximarem. Não fui tão óbvio quanto ao me
render, mas já estava de saco cheio de andar pra lá e pra cá.Por entre as copas
das árvores vi a lua mais que cheia, o olho da própria Ártemis estava a
espreita. Quando o kalebete número 1 me alcançou deixei-o prender-me e antes
que tapasse minha boca, sussurrei “Ártemis” e tudo foi da magnificência divina
esperada.
Surgiu das árvores uma linda virgem de
cabelos negros ondulados, pele alva, olhos claros, vestes simples, mas
majestosas. Ao seu lado um lobo branco prateado e a sua volta uma leve bruma.
Vinte caçadoras ocultas pelas árvores apontavam
suas flechas para os dois capangas. O numero 1 sorriu para o numero 2, como se
esperassem por isso.
- Lady Ártemis, a que devemos a honra?
- Não seja hipócrita Tibérius, sabe bem
que matar uma de minhas meninas é um crime imperdoável.
- Comovente. Porque eu me preocuparia?
- Porque ela é uma Deusa seu imbecil –
soltei isso com mais medo do que sarcasmo. Só Kaleb não tinha medo dos Deuses.
- Cale a boca mortalzinho nojento.
- Obrigada, Órion, mas isso fica entre
os... Kalebetes... Hum gostei, e eu.
Vinte flechas dispararam de encontro ao
número dois e antes de chegarem perto dele, mais vinte corriam de encontro a
Tibérius, matando os dois prontamente. Ou não.
Os dois cairiam no chão ofegando,
pareciam bonecos de vodu gigantes, mas não morreram, nunca vi tantas flechas em
uma pessoa viva.
- Ah, agora compreendo como foram tão
rápidos para envenenar Anira, sem ela perceber. Venderam suas almas, não foi?
- Argh, malditas
caçadoras... Isso não vai nos deter... Argh... Agora sabe disso.
- Diga: quem é o comprador? – perguntei
assustado.
- É Tibérius, Órion merece saber.
- Hahaha... Você faz ideia mesmo
mortal?
- Se eu fizesse não perguntava.
- Claro, talvez a falta de melanina em
seus cabelos justifique. - Ártemis abafou
o riso – porque acha que Kaleb é tão forte? Porque acha que é tão difícil
matá-lo?
- Ah, ótimo, mas ele está morto agora e...
– de repente vi algo que escapara. “A polícia encontrou o morador da casa
morto, Kaleb Badair” – qual o sobrenome do Kaleb mesmo?
Os capangas riram em meio à tosse e
sangue – Isso Órion, Kaleb não morreu, só perdeu a carcaça.
- Badair era o nome do meu vizinho,
Hafik. Eu to confuso.
- Quem é o imbecil agora moleque – mais
risos.
- eu não tenho vinte flechas no corpo.
E lançadas por meninas.
- Kaleb tomou o corpo do seu vizinho e
o seu vizinho é quem morreu no lugar de Kaleb.
- Então ele tem a cara do Hafik agora?
- Não, ele está com a mesma cara. Com
carne e osso ele faz o que quer no corpo.
- Me trouxe aqui para pegá-los e
matá-los. Porque ta me contando isso?:
- Para você aprender que enquanto não
assumir seu destino, não terá vingança.
- E vocês correram riscos. Certo.
Mate-os, por favor, senhora.
- Com prazer.
Ártemis brilhou os olhos e os dois
capangas tornaram-se gamos abatidos. Uma das flechas na mão de Ártemis virou um
machado, com o qual ela decepou e despedaçou os animais.
Seu lobo deu um uivo e vários animais
carnívoros vieram compartilhar o banquete.
- Acho que és digno de ajuda, Órion.
Serves aos deuses de má vontade, mas serves bem.
- Obrigado. Eu acho.
- Hum... Acho que sim. Sua
companheira...
- uma mulher?
-... Já está chegando. Vai precisar
dela para seu próximo feito.
- onde a encontro?
- espere em seu quarto, de janela
aberta. Vá dormir agora. Por ora, abençoado sejas, Órion Dakart, pois à mãe-lua
servistes bem.
Com um clarão, Ártemis se foi e eu me
encontrava em frente à porta do meu quarto. Abri, entrei, abri a janela, deitei
na cama e apaguei.
Em meus sonhos, Kaleb sorria
delicadamente para mim e com ar de riso sussurrava “Falta de melanina...”.
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