sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Lágrimas de Dragão IV

- capítulo iv –
“Se a morte fosse um bem, os deuses não seriam imortais.” [Safo de Lesbos]

         As ruas daquele vilarejo, no trópico de capricórnio não eram exatamente como a Fifth Avenue, Tampouco parecia a 25 de março, tava mais para uma esquina de tendas com comida e bebida. Experimentei alguns quitutes, vi alguns bichos, joguei baralho, achei por acaso um colega de escola antigo, o Ramon, andei, bebi, andei e nada dos kalebetes, apelido amável dado por mim aos capangas de Kaleb.
         Por volta da 03h35min da matina senti uns olhos me seguindo, continuei a andar, me escondendo, esquivando, até estar bem longe, e mais vulnerável.
         Quando só árvores existiam ao meu redor, senti dois kalebetes se aproximarem. Não fui tão óbvio quanto ao me render, mas já estava de saco cheio de andar pra lá e pra cá.Por entre as copas das árvores vi a lua mais que cheia, o olho da própria Ártemis estava a espreita. Quando o kalebete número 1 me alcançou deixei-o prender-me e antes que tapasse minha boca, sussurrei “Ártemis” e tudo foi da magnificência divina esperada.
         Surgiu das árvores uma linda virgem de cabelos negros ondulados, pele alva, olhos claros, vestes simples, mas majestosas. Ao seu lado um lobo branco prateado e a sua volta uma leve bruma.
         Vinte caçadoras ocultas pelas árvores apontavam suas flechas para os dois capangas. O numero 1 sorriu para o numero 2, como se esperassem por isso.
         - Lady Ártemis, a que devemos a honra?
         - Não seja hipócrita Tibérius, sabe bem que matar uma de minhas meninas é um crime imperdoável.
         - Comovente. Porque eu me preocuparia?
         - Porque ela é uma Deusa seu imbecil – soltei isso com mais medo do que sarcasmo. Só Kaleb não tinha medo dos Deuses.
         - Cale a boca mortalzinho nojento.
         - Obrigada, Órion, mas isso fica entre os... Kalebetes... Hum gostei, e eu.
         Vinte flechas dispararam de encontro ao número dois e antes de chegarem perto dele, mais vinte corriam de encontro a Tibérius, matando os dois prontamente. Ou não.
         Os dois cairiam no chão ofegando, pareciam bonecos de vodu gigantes, mas não morreram, nunca vi tantas flechas em uma pessoa viva.
         - Ah, agora compreendo como foram tão rápidos para envenenar Anira, sem ela perceber. Venderam suas almas, não foi?
- Argh, malditas caçadoras... Isso não vai nos deter... Argh... Agora sabe disso.
         - Diga: quem é o comprador? – perguntei assustado.
         - É Tibérius, Órion merece saber.
         - Hahaha... Você faz ideia mesmo mortal?
         - Se eu fizesse não perguntava.
         - Claro, talvez a falta de melanina em seus cabelos justifique.    - Ártemis abafou o riso – porque acha que Kaleb é tão forte? Porque acha que é tão difícil matá-lo?
         - Ah, ótimo, mas ele está morto agora e... – de repente vi algo que escapara. “A polícia encontrou o morador da casa morto, Kaleb Badair” – qual o sobrenome do Kaleb mesmo?
         Os capangas riram em meio à tosse e sangue – Isso Órion, Kaleb não morreu, só perdeu a carcaça.
         - Badair era o nome do meu vizinho, Hafik. Eu to confuso.
         - Quem é o imbecil agora moleque – mais risos.
         - eu não tenho vinte flechas no corpo. E lançadas por meninas.
         - Kaleb tomou o corpo do seu vizinho e o seu vizinho é quem morreu no lugar de Kaleb.
         - Então ele tem a cara do Hafik agora?
         - Não, ele está com a mesma cara. Com carne e osso ele faz o que quer no corpo.
         - Me trouxe aqui para pegá-los e matá-los. Porque ta me contando isso?:
         - Para você aprender que enquanto não assumir seu destino, não terá vingança.
         - E vocês correram riscos. Certo. Mate-os, por favor, senhora.
         - Com prazer.
         Ártemis brilhou os olhos e os dois capangas tornaram-se gamos abatidos. Uma das flechas na mão de Ártemis virou um machado, com o qual ela decepou e despedaçou os animais.
         Seu lobo deu um uivo e vários animais carnívoros vieram compartilhar o banquete.
         - Acho que és digno de ajuda, Órion. Serves aos deuses de má vontade, mas serves bem.
         - Obrigado. Eu acho.
         - Hum... Acho que sim. Sua companheira...
         - uma mulher?
         -... Já está chegando. Vai precisar dela para seu próximo feito.
         - onde a encontro?
         - espere em seu quarto, de janela aberta. Vá dormir agora. Por ora, abençoado sejas, Órion Dakart, pois à mãe-lua servistes bem.
         Com um clarão, Ártemis se foi e eu me encontrava em frente à porta do meu quarto. Abri, entrei, abri a janela, deitei na cama e apaguei.
         Em meus sonhos, Kaleb sorria delicadamente para mim e com ar de riso sussurrava “Falta de melanina...”.

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