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Capítulo III –
“A arte de viver se assemelha mais a luta do que
à dança, porque é preciso estar preparado e firme para enfrentar o que vier e
não o que pode ser previsto” [Imperador Marco Aurélio]
Por mais que eu gostasse de todas as
pessoas, Madagascar me irritava. Muita gente, muito bicho, muito mato, muita
areia, muito. Vedei portas e janelas com pó de tijolo, o que me rendia o dia
seguro. Sentado na cama de colchão fino e duro, analisei o meu estado: magro,
cansado, com olheira e o meu coração duro.
Havia cinco anos, eu era o típico ídolo
teen, alto, bonito, forte, definido, simpático alegre, bonito e sedutor. Eu
devia ter desconfiado das facilidades.
Minha mãe morreu naquela tarde de 31 de
outubro, enquanto eu cortava meu bolo de 16 anos. Três homens entraram armados,
gritaram com todos, mataram só minha mãe. Eu consegui correr. E corri, corri,
corri... Por quase toda a cidade, até conseguir me esconder junto a uma
montanha de lixo. Nunca chorei tanto na vida.
Fiquei ali até o lixeiro passar
recolhendo os sacos e isso já era dia 1º de novembro.
Fiz a coisa mais burra da minha vida:
Voltei para casa.
O corpo da minha mãe jazia no chão da
sala de jantar, o bolo estava lá, ouvi sirenes e corri para o segundo andar,
peguei o porta-retrato da cabeceira da minha mãe, voltei ao térreo, achei a
câmera com as fotos e então o vi pela primeira vez; Kaleb, o Anjo Negro. Ele sorria delicadamente para mim, mantinha
os braços nas costas, em seu lindo terno preto, o rosto quadrado de traços
marcados, denunciavam as origens gregas e nos cabelos, cachos muito negros
brilhantes.
Fiquei paralisado, mas a principio não
tive medo.
- Meu nome é Kaleb. Eu... Posso te
ajudar se vier comigo.
Fiquei olhando e olhando e ele
sustentando. Algo não me deixava ir.
Coloquei a câmera fotográfica no bolso,
junto com o porta-retrato, dei um passo atrás e de repente Kaleb estava ao meu
lado.
- Venha comigo, eu posso ajudá-lo. Eu
sei o que fizeram com a sua mãe, sei quem a matou.
Meus olhos arderam e verteram
silenciosas lágrimas. Um ódio cresceu dentro de mim e aquele homem de feições
bondosas tinha respostas. “Tolo”. É o que eu escuto hoje ao lembrar- me da
cena.
Timidamente levantei os olhos para
Kaleb: - Quem fez isso co0migo? Por quê?
- Venha comigo e vai saber de tudo.
- Não! Me dia agora.
- Já disse, garoto. Venha comigo e vai
saber.
Kaleb pôs a mão em meu ombro e eu senti
o frio que emanava dele. Decidi ouvir o meu feeling e corri para a porta, mas
Kaleb estava lá, corri para ao s fundos e lá estava ele. Não importava o quanto
eu corresse, Kaleb sorria levemente a minha frente.
-Vamos facilitar para nós dois garotos. Venha
comigo por bem.
- Você mente, você não é humano, você é
frio demais. E o que acha que vai ganhar comigo?
- Você é só o que quero, venha. Não me
obrigue a usar minha força.
Eu tinha pouca criatividade para
argumentos na época. Uma pena. Corri mais uma vez pela casa e senti um enorme
peso correr logo em encalço. Kaleb parecia o próprio Minotauro: forte, veloz, monstruoso.
Tinha as mãos posicionadas ao lado de minha cintura, pronto para me agarrar,
como um débil inseto e quando eu estava quase porta a fora e ele quase me
prendendo, um vento forte entrou porta adentro e derrubou Kaleb.
Ouvi uma voz gritar “FUJA”, prontamente
atendi, correndo mais e mais até ouvir a explosão.
Parei e olhei para trás. Minha casa
estava em chamas. Vi minha vida ruindo e queimando e quase me perdi em mim
mesmo, quando um garoto, um homem, não sabia precisar, com gentis olhos de
brisa, aproximou-se:
- Você está bem?
- Podia ser melhor.
Tá ferido?
- Não muito. Quem é você?
-Sou Zé... José.
- O quê aquele Kaleb queria?
- Você. Ele disse!
- Tá, mas por quê?
- Porque você é... Especial.
- Qual é cara, se ser especial faz isso
com as pessoas, eu quero ser normal.
- Peculiar, melhor dizendo.
- Me sinto bem melhor.
- A primeira coisa que deve saber é que
a ironia não é boa amiga para você.
- E você? É um bom amigo para mim?
- Sou e serei. Bem aventurado sejas,
Órion Dakart, pois não caístes nas mãos do nefasto Kaleb.
Órion Dakart. Há quanto tempo não ouço
esse nome. Meu nome.
Ouvi burburinhos fora do quarto e despertei
do transe nostálgico. Eram quase 19 horas. Eu deveria sair, aproveitar a cidade
(o que não me apetecia) e com sorte, ainda hoje, eu completaria a missão de Ártemis.
Liguei a TV e o noticiário informava que Jenson Burns havia sido o assassino do
empresário Kaleb Badair. De novo os deuses me foram gentis. Acendi velas e
incensos e queimei comida para eles, agradecendo o mimo do nome. 20h18min,
vamos á caça, ou melhor, ao caçador.
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